22 de julho
A Oração do Alfabeto
Sim, só Tu conheces o coração do homem. 1 Reis 8:39, NVI.
Limpinha de estalar e cheirando a pétalas de rosa, Melissa se aconchegou sob o cobertor na grande cama do quarto de hóspedes, onde ela ficaria enquanto seus pais estivessem ausentes para o final de semana. Havia sido um dia maravilhoso, dando pão seco aos patos migratórios no estuário e terminando sua primeira aula de crochê. Como havíamos brincado e rido a respeito da agulha de crochê com mente própria! “Você faz a oração de boa-noite primeiro”, sugeriu Melissa, acompanhando suas palavras com um enorme bocejo.
Comecei com “Querido Pai do Céu”, expressando agradecimentos por várias coisas, inclusive o fato de que Melissa e eu teríamos três dias inteiros para passar uma com a outra. Terminei minha oração com “Amém”.
Silêncio. Abri um olho. Melissa estava deitada quieta na cama, bem abraçada com o seu ursinho de pelúcia. Mais silêncio. Crendo que a oração é uma atividade muito pessoal e particular, não quis insistir com ela. No momento em que eu decidia que minha oração servira para nós duas, sua voz suave quebrou o silêncio.
“A, b, c, d, e, f, g ...” O som da voz dela continuou claro e deliberadamente pelo alfabeto inteiro e terminou com “Muito obrigada. Amém.”
Mas afinal de contas, o que é que está acontecendo? perguntei a mim mesma. Em voz alta, perguntei: – Isso é um tipo novo de oração, Melissa? Oração sem palavras?
– Na realidade, não – respondeu ela serenamente. – Mas meu coração está tão cheio que eu não sei que palavras dizer.
Pausa. Às vezes acho difícil ser paciente e esperar pela resposta no momento em que ela quiser falar.
– Mamãe diz que Deus sempre sabe o que está no meu coração – acrescentou Melissa, após uma demora que pareceu interminável. Fiz um movimento com a cabeça, encorajando-a a prosseguir.
– Então simplesmente dou as letras a Deus para que Ele forme as palavras certas. As palavras que meu coração não sabe dizer – acrescentou ela com um sorrisinho. E com isso ela fechou os olhos e em questão de segundos estava dormindo.
Beijei-a nas duas bochechas, acendi a luz do corredor e saí do quarto. Sentada junto à lareira, refleti sobre minha lição do dia, dada pelo discernimento da minha pequena professora, Melissa. Nem sempre tenho razão. Ser mais velha não quer dizer mais sábia. Deus conhece as palavras que meu coração não sabe dizer.
Arlene Taylor